Se há uma pergunta que praticamente todos os pais, professores e explicadores de Matemática já ouviram, é esta:
“Mas para que é que isto serve?”
É uma pergunta sincera. E, na verdade, merece uma resposta igualmente sincera.
Quando um aluno aprende equações, funções, trigonometria ou derivadas, é natural que tenha dificuldade em perceber a utilidade prática desses conhecimentos. Afinal, quantas pessoas calculam uma derivada no supermercado ou resolvem um sistema de equações quando vão comprar pão?
A resposta é simples: muito poucas.
Mas isso não significa que estudar Matemática seja inútil.
Muito pelo contrário.
A Matemática não ensina apenas Matemática
Imagine uma criança que pergunta:
“Porque é que tenho de aprender isto, se nunca vou usar?”
A comparação que costumo fazer é esta:
Quando vamos ao ginásio, ninguém levanta pesos porque pretende transportar halteres pela rua.
Fazemo-lo para fortalecer os músculos.
A Matemática faz exatamente a mesma coisa, mas com o cérebro.
Cada problema resolvido é um exercício de raciocínio.
Cada demonstração é um treino da lógica.
Cada exercício desenvolve a capacidade de pensar de forma organizada.
Aprender a resolver problemas
Grande parte da vida consiste em resolver problemas.
Nem sempre são problemas matemáticos. Podem ser financeiros, profissionais, até pessoais. Ou simplesmente decisões do dia a dia.
Quem estudou Matemática aprende, muitas vezes sem se aperceber, um método muito útil:
- compreender o problema;
- identificar a informação importante;
- ignorar o que não interessa;
- procurar uma estratégia;
- testar soluções;
- verificar se a resposta faz sentido.
Curiosamente, este método funciona em muitas áreas da vida.
Nem todos serão matemáticos
É verdade.
Tal como nem todos os alunos que têm Educação Física serão atletas olímpicos.
Nem todos os que têm Educação Visual serão pintores.
Nem todos os que estudam Português serão escritores.
A escola não existe apenas para formar especialistas, existe para desenvolver capacidades.
A Matemática é uma dessas ferramentas.
“Mas eu quero ser músico!”
Excelente.
Ou cozinheiro.
Ou fotógrafo.
Ou mecânico.
Ou enfermeiro.
Ou designer gráfico.
Ou piloto.
Independentemente da profissão escolhida, a capacidade de pensar de forma lógica continua a ser uma enorme vantagem.
É por isso que tantas empresas valorizam pessoas que sabem resolver problemas, aprender depressa e raciocinar de forma estruturada.
E a Matemática do ensino secundário?
Aqui a pergunta torna-se ainda mais frequente.
Funções exponenciais.
Logaritmos.
Trigonometria.
Probabilidades.
Derivadas.
Muitos alunos perguntam:
“Vou usar isto quando trabalhar?”
Alguns sim.
Muitos não.
Mas esse não é o objetivo principal.
Estas matérias obrigam o cérebro a lidar com conceitos mais abstratos, a relacionar ideias diferentes e a desenvolver um pensamento cada vez mais rigoroso.
É um treino intelectual que prepara o aluno para enfrentar desafios muito mais complexos do que um simples exercício de Matemática.
Um exemplo simples
Imagine duas pessoas.
Ambas têm exatamente a mesma informação.
Uma consegue organizá-la, analisá-la e chegar a uma conclusão lógica.
A outra perde-se no meio dos dados e toma decisões ao acaso.
Qual delas terá mais facilidade em resolver problemas no trabalho, e na vida?
É precisamente essa diferença que a Matemática procura desenvolver.
A verdadeira utilidade
Muitas vezes, um aluno termina o ensino secundário sem voltar a calcular uma derivada durante o resto da vida.
Mas continuará a utilizar diariamente aquilo que a Matemática lhe ensinou:
- pensar antes de decidir;
- analisar informação;
- reconhecer padrões;
- resolver problemas;
- verificar se uma conclusão faz sentido;
- não aceitar tudo sem espírito crítico.
Essas competências acompanham-nos durante toda a vida.
A minha opinião
Depois de muitos anos a explicar Matemática, continuo a acreditar que a maior riqueza desta disciplina não está nas fórmulas.
Está na forma como nos ensina a pensar.
Naturalmente, alguns conteúdos terão aplicação direta em determinadas profissões e outros nunca mais voltarão a ser utilizados por muitos alunos.
Mas isso acontece em praticamente todas as disciplinas.
O verdadeiro valor da Matemática está em desenvolver uma forma de raciocinar que nos acompanha para sempre.
Por isso, quando um aluno me pergunta:
“Mas para que é que isto serve?”
A minha resposta costuma ser muito simples:
“Talvez não venhas a usar todas as fórmulas. Mas vais usar, todos os dias da tua vida, a forma de pensar que aprendeste ao estudá-las.”
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